Oferta de serviços como aplicativos de entrega é limitada para moradores de favelas


Oferta de serviços como aplicativos de entrega é limitada para moradores de favelas em diversas cidades do país


“Queremos ser agentes da nossa própria transformação e com o tempo vamos nos libertar de todos esses problemas”, diz Rodrigues, que lidera a iniciativa junto com Reginaldo Lima, do Alemão, e afirma que já estão confirmados para o encontro de novembro representantes de Ceará, Rio e São Paulo, mas a ideia é estender o convite a todas as comunidades do país. “Queremos aumentar para G-20, G-30”, diz.

Um ponto importante para os organizadores da iniciativa é deixar claro que o objetivo não é arrecadar doações ou patrocínio, mas investimentos que gerem tanto retorno ao investidor quanto o desenvolvimento econômico das comunidades.

O capital será devolvido pelo empreendedor em um prazo de três a cinco anos, e o investidor tem direito a compra de participação minoritária no empreendimento.

“Tem uma relação saudável do capitalista que investe para a gente, colocou o dinheiro em uma área que tem preconceito, mas ele continua sendo o capitalista de sempre”, define Lima.

Analfabeto até os 25 anos, ele aprendeu a ler em materiais que coletava no lixo de um prédio nos arredores do Alemão e sabe o valor da oportunidade.

“Catava o lixo de um prédio e tinha um lixo de textos que me deixavam confusos. Um dia eu vi que eram de um professor de filosofia e (aquilo) começou a me provocar. Professor Paulo estava passando por um câncer super agressivo. Nos meses de vida dele, por quatro ou cinco meses, eu tive uma imersão no mundo da filosofia’, conta Reginaldo que, aos 53 anos, se tornou autodidata.

Formato financeiro
No evento do dia 23, empreendedores das comunidades poderão fazer um “pitch” — como é chamado na linguagem dos negócios o discurso de “venda” para convencer os investidores — a dois fundos: o Investe Favela e o Fundo Alicerce.

Enquanto o primeiro é liderado por Gilson e Reginaldo e criado a partir do dinheiro de empresários que preferem não terem seus nomes divulgados, o segundo é liderado pelo empresário Paulo Nogueira Batista, do grupo Alicerce Educação, e por Gilson, de Paraisópolis, que são sócios no fundo.

Batista, 35, advogado com carreira no mercado financeiro, fundou há cerca de um ano a startup de impacto social voltada a reforço educacional justamente para as periferias.

“Oferecemos educação de alta qualidade, com os melhores modelos de fora do país, por R$ 150 por mês, no contraturno da escola para famílias de classe média e mais pobres”, explica o empresário, que já tem 12 unidades em bairros como Brasilândia, Grajaú e Vila Prudente, e deve abrir mais 40 até 2020, inclusive em Paraisópolis.

O Fundo Alicerce destinará R$ 2 milhões na primeira etapa a 17 empreendimentos da periferia, que ainda serão selecionados. O critério de seleção priorizará iniciativas que vendam produtos ou serviços nos bairros do centro expandido, ou substituam produtos que a favela compra desses bairros, para melhorar a “balança comercial” das comunidades.

“Acho que a parte do empresariado que não conhece a periferia e não sabe as oportunidades que existem lá certamente tem medo de investir”, diz Batista. “Mas quem já abriu os olhos vê que é plenamente seguro. Tem muita oportunidade de ganhar dinheiro nas favelas.”

Os projetos selecionados para receber aporte dos fundos precisam, além do impacto social, darem lucro, e serem sustentáveis sem depender de doações. “Tem que vender, não adianta ser um projeto cool, um projeto bonito, que não dê dinheiro. Não adianta ser um PPT sem o XLS”, brinca o empresário.

A mineira Liza Vasconcelos Simões, 27 anos, diretora executiva do Investe Favela, diz que a diferença em investir em empresas da favela é que muitas vezes os empreendedores tiveram menos oportunidade de acesso à educação de qualidade.

“O acesso à educação nas favelas é muitas vezes interrompido, é recorrente abandonarem a escola com 13, 14 anos para começarem a trabalhar e trazer dinheiro para casa. Aí depois ficam desempregados e não têm como voltar para a escola, ficam nesse limbo”, diz, explicando que tal situação cria um abismo que afasta os jovens da periferia das aceleradoras de startups.

“É um processo pedagógico, são quase dois mundos diferentes. Uma realidade injusta, e aí você vai lá e encontra tantos empreendedores maravilhosos”, diz. “O relacionamento (entre) favela e asfalto é absolutamente difuso, o que cria um mercado paralelo, completamente potente.”

E a violência?
Na sexta-feira (04/10), enquanto a reportagem conversava com alguns moradores por telefone sobre os empreendimentos, o Alemão vivia mais um dia de tiroteios entre facções.

Vídeos espalhados pela internet mostravam tiros cruzando o céu e corpos de pessoas mortas durante os tiroteios na guerra daquela semana. No dia 1 de outubro, a favela também ficou cheia de policiais ao ser palco da reconstituição da morte de Ágatha Félix, de 8 anos, que morreu baleada no dia 20 de setembro quando voltava para casa com a mãe em uma Kombi no Alemão.

“Fundei a empresa à base de muito tiroteio de madrugada, muita briga de tráfico entre facções. Criando o nome da empresa, o branding, a gente dentro. E não falo só do complexo, falo de periferia em geral’, diz Hugo Miranda, da Silicon Pay.

Herbert, da Cptech, também passou por experiências semelhantes. “Nossa sede é na ONG Educap, no Complexo do Alemão, e às vezes nós não podemos ir até o nosso local de trabalho por violência”, diz.

No dia em que a reportagem conversou com Herbert, eles preferiram não ir até o escritório porque ocorria a reconstituição de um crime. “A nossa vantagem é que trabalhamos com tecnologia, e podemos trabalhar de qualquer lugar”, diz.

Gilson, de Paraisópolis, diz que muitos investidores que deixam de aplicar dinheiro em startups nas favelas têm ideias equivocadas sobre o impacto da violência nos negócios, e a ideia é que um modelo com lideranças claras aproxime mais o capital das comunidades.

“Tem muita gente que acha que para investir na favela tem de pagar pedágio para o tráfico”, diz, acrescentando que tal problema não faz parte da rotina de Paraisópolis e de muitas outras favelas.

Capital anjo e banco na favela
Além da Cptech e da Silicon Pay, do Alemão, outro projeto que receberá investimentos na incubadora é o Banco de Paraisópolis, que terá não só conta digital, mas unidade física para também servir de efeito “pedagógico” para uma população que nunca teve conta em banco, e trabalha na maioria no setor de serviços, como faxina e portaria.

“O perfil da comunidade é um cara que guarda o dinheiro no colchão. Ele quer ver o boleto pago e guardar cinco anos para não dar problema.
Então esse processo de mudança para o digital vai demorar um pouquinho”, diz Gilson Rodrigues.

O banco será criado em modelo de Empresa Simples de Crédito (ESC), por meio de uma holding que deve estar operante dentro de 20 dias. E terá também plataforma digital e um cartão pré-pago em três categorias: um sem valor mínimo, um para quantias a partir de R$ 500 e um cartão black, de R$ 1.000.

Os ricos pioneiros da favela
Mas se engana quem pensa que é nova a ideia de que se pode ganhar dinheiro na periferia. Empresários mais antigos, que vieram do Nordeste nos anos 90 sem família e sem ter onde morar, lidam hoje com a fama de “milionários” da região e servem de inspiração para os jovens empreendedores.

Manuel Cícero, por exemplo, e José Flavio de Souza Soares, ambos com 47 anos, têm histórias parecidas; sem concluir o ensino básico e sem apoio financeiro ou orientação, ambos alcançaram uma vida muito mais confortável do que imaginariam.

As decisões, para eles, eram de curtíssimo prazo: embora não tivessem recursos para a sobrevivência, usavam o dinheiro de uma venda para comprar o próximo estoque, e iam crescendo a partir daí.

“Já nasci com o dom para ganhar dinheiro desde que era criança em Triunfo, Pernambuco. Deixei minha família, meu pai, depois fui buscando um a um. Vim com o intuito de ganhar dinheiro”, diz Cícero, que hoje tem três unidades da loja de material de construção Três Irmãos em Paraisópolis.

Soares, que hoje é conhecido na favela como referência de empresário bem-sucedido na comunidade, diz que já quebrou muitas barreiras que hoje são hoje mais suaves para os novos empreendedores.

“Quando eu comecei a comprar dos grandes distribuidores, quando chegavam na favela não queriam entregar. Muitos motoristas chegavam, não entravam e falavam que foram ameaçados. Já tive que pegar mercadoria na avenida Francisco Morato, na avenida Giovanni Gronchi (vizinhas a Paraisópolis, no bairro do Morumbi) e os caminhões paravam lá. Fui quebrando esses paradigmas”, diz o dono da ESPan, loja de produtos para embalagens com 20 funcionários registrados em carteira assinada.

Na época, não havia também um plano de negócio. Soares vendia o que conseguia comprar, sacolas plásticas aqui e ali, e ia tendo ideias criativas pelo caminho.

“Quando eu juntava dinheiro para fazer um pedido mínimo eu fazia, inventava outra mercadoria”, lembra o empresário, que muitas vezes se viu endividado, sem capital de giro ou apoio de mentores ou investidores. “Hoje o preconceito é bem menor, e a favela é essa potência.”

Para Gilson Rodrigues, casos como esses mostram que o potencial de consumo nas favelas nunca esteve adormecido, como pensam muitos investidores “do asfalto”. “Nos eventos que participo sobre empreendedorismo, muitas vezes, o tema consumo nas periferias é tratado como ‘potencial adormecido’ e eu sempre digo que quem está dormindo é quem não está investindo nas favelas.”

 

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